Gastrite é a inflamação da mucosa do estômago (um achado que se identifica no exame), e a maioria das pessoas com gastrite não apresenta sintoma algum. Dispepsia é o conjunto de sintomas: dor ou queimação na parte alta do abdome, empachamento e saciedade precoce. Como as duas coisas não se correspondem, é perfeitamente possível ter gastrite sem sintomas e ter sintomas com endoscopia normal, situação que recebe o nome de dispepsia funcional e não significa que o problema seja imaginário.
Poucas frases desorientam tanto um paciente quanto ouvir que o exame não mostrou nada quando o estômago dói todos os dias. A leitura imediata é de que o sintoma foi desacreditado. Não foi: entender por que exige separar duas palavras que o uso cotidiano juntou.
Duas coisas diferentes com o mesmo apelido
- Gastrite é um achado: o revestimento do estômago está inflamado. Identifica-se na endoscopia, em geral com biópsias.
- Gastropatia é o revestimento danificado com pouca ou nenhuma inflamação, também um achado de exame.
- Dispepsia é um conjunto de sintomas: dor ou queimação na parte alta do abdome, empachamento após refeições, saciedade que chega cedo demais.
No dia a dia, tudo isso virou gastrite. O problema dessa fusão é que ela cria uma expectativa falsa: a de que o sintoma tem que aparecer no exame. E a maior parte das pessoas com gastrite ou gastropatia não apresenta sintoma nenhum: quando apresenta, são sintomas de indigestão ou sangramento.
O que a endoscopia normal quer dizer: que não há úlcera, tumor, lesão significativa da mucosa nem sangramento. Isso não é pouco: é justamente o que precisava ser afastado. O que ela não faz é medir dor, e ausência de lesão visível não é ausência de sintoma real.
O que é a dispepsia funcional
É o nome que se dá aos sintomas dispépticos persistentes quando a investigação não encontra uma lesão que os explique. Funcional aqui se refere ao funcionamento: o estômago pode esvaziar de forma irregular, distender-se menos do que deveria após a refeição, ou ter uma sensibilidade aumentada a estímulos que outras pessoas não percebem. Nada disso aparece numa imagem, e nada disso é invenção.
É um diagnóstico clínico, feito por critérios definidos, não um rótulo de descarte. A diferença importa: um diagnóstico tem conduta, e um descarte não tem.
O que costuma ser investigado quando o exame vem normal
- H. pylori: a infecção é a causa mais comum de gastrite, e o tratamento pode melhorar sintomas dispépticos em parte dos casos
- Medicações em uso: anti-inflamatórios, alguns antibióticos e suplementos de ferro produzem sintomas com frequência subestimada
- Ritmo e composição das refeições: volume, intervalo e teor de gordura interferem no esvaziamento gástrico
- Sobreposição com refluxo: os dois quadros convivem com frequência e um pode mascarar o outro
- Sobreposição com intestino irritável: a associação é comum e muda a abordagem
- Álcool e tabaco: ambos agridem a mucosa e alteram a motilidade
Nenhum desses itens é glamouroso, e é exatamente por isso que costumam ser pulados. O paciente que já fez endoscopia espera a próxima imagem, não uma revisão sistemática do que toma e de como come. Mas é aí que a maior parte das respostas está.
Para essa revisão render, vale chegar à consulta com três coisas anotadas. A primeira é a lista completa do que se toma, incluindo o que não parece medicamento: anti-inflamatório para dor de cabeça, suplemento de ferro, chá, fitoterápico. A segunda é o padrão do sintoma: se aparece em jejum ou depois de comer, se piora com volume ou com um tipo de alimento, se acorda à noite. A terceira é o laudo da endoscopia anterior por inteiro, não apenas a conclusão, inclusive a descrição de quais biópsias foram colhidas e de onde.
Sinais que pedem reavaliação, mesmo com endoscopia recente normal
- Vômito com sangue ou fezes escuras e de odor forte
- Perda de peso não intencional
- Dificuldade progressiva para engolir
- Vômitos persistentes
- Anemia sem causa identificada
Um exame normal tem validade limitada no tempo. Se algum desses sinais surgiu depois dele, a avaliação recomeça: o exame anterior descreve o passado, não o presente.
O que muda quando o nome é o certo
Chamar de dispepsia funcional o que é dispepsia funcional muda o tratamento. Enquanto o quadro é tratado como gastrite, a conduta tende a girar em torno de reduzir acidez indefinidamente. Quando o sintoma não vem da acidez, o resultado é uso prolongado de medicação com benefício parcial. Reconhecido o diagnóstico, entram outras frentes: ajuste do que e de como se come, medicações que atuam sobre motilidade ou sensibilidade, e reavaliação periódica. O médico define a combinação caso a caso, e a resposta varia entre pessoas.